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Cinema é Arte?
Ademir Luiz da Silva
“Se Leonardo vivesse hoje, não
pintaria a Gioconda, mas faria um filme.”
John Lennon
A palestra começou atrasada. A última
palestra do último dia de congresso. A platéia, entre sonolenta
e irritada, ocupava menos da metade dos lugares do auditório. Daniel
Luterman, recém doutorado, parecendo muito mais jovem do que realmente
era, tinha consciência de que não inspirava respeito. Usava
óculos, mas faltava-lhe barriga, calva e ar professoral. Inexperiente
em falas públicas, preferiu não arriscar. Não tentaria
ser engraçado, não iria improvisar. Abriu sua pasta 007 e
retirou algumas folhas amassadas: a versão mais recente do ensaio
do qual tanto se orgulhava. Alimentava vagas esperanças de publicá-lo,
completo, em algum lugar. Leu-as com a boca próxima demais do microfone,
provocando eventuais zumbidos.
DANIEL LUTERMAN: O épico Spartacus é considerado pela totalidade
dos críticos de cinema como um filme brilhante. Ironicamente, seu
diretor, Stanley Kubrick, não concordava. Segundo o polêmico
cineasta o motivo da negação era simples: ele assinou Spartacus,
mas Spartacus não era um filme seu. Dirigiu-o contratado pelo produtor
e estrela do longa, Kirk Douglas, para substituir o despedido Anthony Mann,
sendo obrigado a trabalhar com um roteiro do qual não gostava, sem
controle artístico nenhum do resultado final das filmagens. Foi pouco
mais do que um operário entre muitos. Por tudo isto preferia ver
o filme excluído de sua obra. Costumava brincar, confessando que
não sabia o que dizer quando alguém lhe falava entusiasmado
que tinha adorado Spartacus. Sentia que tinha pouco que ver com aquilo. Stanley
Kubrick se considerava um autor e definitivamente não reconhecia como
sua a autoria do tão louvado épico, por mais louvado que fosse.
Este capítulo do rico folclore dos bastidores
do cinema dá margem a um questionamento. A realização
cinematográfica, chamada comumente de Sétima Arte, sendo obviamente
movida pelo esforço coletivo, para atender a uma demanda de mercado
muito bem definida, admite em sua estrutura a figura do autor? Um produto
industrial pode ser assinado por um artista criador? Será arte?
Um dos maiores atores do século XX, Marlon Brando,
respondeu a esta pergunta ironicamente: “Eu dou risada das pessoas que dizem
que fazer filmes é arte e que os atores são artistas. Artistas
foram Rembrandt, Beethoven, Shakespeare e Rodin; os atores são formigas
operárias que participam de um negócio e labutam por dinheiro”.
Por outro lado, o diretor irlandês Neil Jordan afirmou que: “Cinema
é como poesia. E nos filmes – quando eles são verdadeiramente
bons – você encontra um tipo de poesia inexistente em qualquer outra
forma de expressão, nem mesmo na poesia. No filme você obtém
uma justaposição de idéias como não se consegue
em qualquer outra forma de expressão”. Num terceiro nível
temos Francis Ford Coppola que, tomado de um espírito olímpico,
defendeu que: “Algum dia, uma garota gordinha de Ohio será o novo
Mozart e fará um lindo filme com a camerazinha de seu pai. Daí
o assim chamado profissionalismo terá sido destruído, e o cinema
passará a ser uma forma de arte.”
O fato é que o cinema não nasceu nem como
arte, nem como indústria. Começou como uma bizarra curiosidade
científica. As imagens em movimento (fotos em movimento?), exibidas
em 28 de dezembro de 1895, pelos irmãos Auguste e Louis Lumière,
no Grand Café do Boulevard des Capucines de Paris, fascinaram os
franceses, sempre sedentos por novidades. Grosso modo os primeiros filmes
apenas registravam cenas do cotidiano. Seus títulos descreviam seus
conteúdos. Eram, por exemplo, A Saída dos Operários
da Fábrica e A Chegada da Locomotiva na Estação. Nesta
gênese o cinema, ou cinematógrafo, parecia destinado a não
ser mais do que uma moda passageira. Uma das muitas que faziam a fama de
Paris. Alguns iam ao Moulin Rouge. Outros iam ao cinematógrafo. Ainda
outros iam assistir as cômicas e muitas vezes trágicas tentativas
de algum cientista maluco de voar com asas de papel coladas nas costas, saltando
da Torre Eiffel. Diversão para todos os gostos.
Contudo, já no ano seguinte, um quarteto de espertos
perceberam o potencial econômico da nova técnica e fundaram
o primeiro estúdio do mundo, o Pathé, que em poucos anos se
tornou uma império internacional. As primeiras realizações
não iam muito além de teatro de pantomima ou shows de prestidigitação
filmados. Nada muito ambicioso ou artístico, meros produtos para
saciar o mercado crescente das “imagens em movimento”. Neste sentido não
resta dúvida de que The Kiss, célebre filme de 1896, mostrando
um beijo em close-up, visava atingir mais o baixo ventre do que a mente das
platéias. Os tempos eram outros e, descontando as devidas proporções
das “atividades físicas”, podemos afirmar que The Kiss foi uma espécie
de precursor do pornô. Gênero que de artístico nunca
teve nada. Assim, nasceu a indústria do cinema. A arte do cinema
permanecia em gestação. Ninguém ainda, dentre os pioneiros,
era ou se dizia autor / artista.
O experimentalismo científico continuava (na
verdade nunca parou) e já em 1898 apareceu o primeiro filme com trechos
coloridos. Ao mesmo tempo as encenações se refinaram e em
1899 é realizada a primeira adaptação de Shakespeare
da história, King John. Shakespeare mudo, obviamente. De qualquer
forma daí em diante, ano após ano, as produções
ficaram cada vez mais complexas, ambiciosas e, o mais importante, começaram
a aparecer as primeiras personalidades célebres do cinema. Estas figuras
angariaram fama e juntamente com ela começaram a almejar prestígio
de artistas.
O primeiro desta estirpe talvez tenha sido o francês
Georges Méliès, introdutor da ficção-científica
na tela, com seu A Viagem à Lua, de 1902. Depois dele surgiu o americano
D. W. Griffith, verdadeiro criador do que se chama linguagem cinematográfica.
Seu filme de 1915, o épico apologético ao racismo O Nascimento
de uma Nação, introduziu o uso de panorâmica e de montagem
alternada. Esta revolução estética foi continuada por
Sergei Eisenstein, em sua louvação da Revolução
Russa, O Encouraçado Potemkin, de 1925, com sua “montagem das atrações”.
Um pouco antes, na desolada Alemanha pós Primeira Grande Guerra,
surgiu o movimento expressionista, cujo marco inicial foi O Gabinete do
Doutor Caligari, dirigido em 1919 por Robert Wiene, onde o clima e o tratamento
das luzes e sombras tornou-se parte fundamental da encenação.
Por tudo isto, na segunda metade dos anos 20, o caminho para a construção
da idéia de cinema como Sétima Arte estava aberto. O ato definitivo
foi a fundação, em 1927, da Academia de Ciências e Artes
Cinematográficas de Hollywood e, por conseguinte, a criação,
em 1929, de um prêmio aos melhores do ano: o futuro Oscar. A melhor
forma de emprestar respeitabilidade a algo, o que quer que seja, é
lhe dar verniz acadêmico. Deu certo: hoje, no ramo das artes, o Oscar
só perde em importância para o Nobel de Literatura, e mesmo
assim ainda ganha em termos de visibilidade.
Não deixa de ser sintomático, e de alguma
forma irônico, que no mesmo ano de 1929 passou a vigorar uma autocensura
no cinema norte-americano. Para evitar escândalos que pudessem prejudicar
seus empreendimentos, o conjunto dos estúdios criou o Código
Hays, uma espécie de cartilha moralizante que definia tudo o que
poderia ou não poderia entrar em um filme. A indústria do
cinema flertava com o status de arte, mas hesitava em arcar com o preço
do que este termo tem de perigoso, contestador, preferindo cultivar seu
sentido bucólico. Afinal, tratava-se já de uma industria milionária,
onde altas somas de dinheiro estavam em jogo. A cadeia de produção
era praticamente fordista, em larguíssima escala. Para se ter uma
idéia, em 1921, Hollywood colocou no mercado exatamente 854 filmes.
Ainda um recorde. Claro que da quantidade sai a qualidade, mas, acima de
tudo, um número tão assombroso como este ilustra a natureza
eminentemente descartável do produto. Não por acaso a grande
maioria dos primeiros filmes não foram preservados. Era prática
comum o reaproveitamento de celulóide. A caríssima arte cinematográfica
necessitava de tais mesquinharias para conseguir sobreviver. Dinheiro sempre
esteve em jogo, sempre deu o tom. Não por acaso o nome que usualmente
se dá para tal atividade, em inglês, é show business.
Uma célebre reflexão do cineasta Orson
Welles, ilustra bem este fato. Ele costumava dizer que se quisesse pintar
um quadro bastava uma tela, pincéis e tintas; se quisesse escrever
um livro bastava gastar algum dinheiro com papel e caneta; mas se por outro
lado quisesse filmar uma única cena teria antes que sair e levantar
um milhão de dólares de financiamento. Welles sabia do que falava.
Com pouco mais de vinte anos chegou em Hollywood como uma lenda do teatro
e do rádio, para assinar um contrato inédito; no qual teria
liberdade artística total para fazer seus filmes. A realidade se mostrou
menos liberal. Seu projeto de adaptar O Coração das Trevas,
de Conrad, foi vetado pelo estúdio. Com os prazos quase se esgotando,
começou a filmar o futuro clássico Cidadão Kane, uma
espécie de biografia disfarçada do magnata da imprensa Willian
Randolph Hearst. O filme do novato revolucionou a técnica cinematográfica
da época, mas fracassou nas bilheterias. Em grande parte devido a
pressão do biografado, que não gostou da homenagem, e usou
seu poder no show business para limitar a exibição da obra.
Depois deste tropeço inicial, Welles nunca mais foi o mesmo. Orgulhoso
do próprio talento, entrou em atrito com meio mundo e se tornou um
pária. Durante décadas pagou para trabalhar. Acabou a vida
usando seu status de lenda para conseguir fazer pontas em filmes de gosto
duvidoso. Morreu celebrado como gênio, mas “subempregado”. Em poucas
palavras, para usar um clichê que não deixa dúvidas sobre
o que ocorreu, Orson Welles, um artista na acepção da palavra,
foi esmagado pelas engrenagens da indústria do cinema.
Muito mais do que os cineastas, os produtores, os homens
do dinheiro, são o motor da indústria. Não é
por acaso que o fim da cerimonia da entrega do Oscar é normalmente
um anti-clímax. Depois do desfile de celebridades lindas, carismáticas
e / ou talentosas indo buscar seus troféus, fazendo seus discursos
chorosos ou de protesto, em uma séria de categorias menores, o prêmio
de Melhor Filme é entregue a um executivo que quase ninguém
conhece. O verdadeiro dono da obra, da bola e da festa. Apesar de todo seu
poder, ou devido a ele, os produtores sempre foram vistos pelo senso comum
como mercenários sem escrúpulos, que podam a criatividade
dos cineastas de acordo com seus interesses econômicos. Um tipo de
Mefistófeles para o qual os artistas, os faustos, precisam vender
continuamente suas almas para poderem continuar trabalhando. A demonização
da figura do produtor ganhou sua tradução definitiva em O
Jogador, de Robert Altman, uma crítica ácida aos bastidores
do show business.
Bem mais sóbrio é o livro O Gênio
do Sistema – a era dos estúdios em Hollywood, de Thomas Schatz, publicado
no Brasil pela Companhia das Letras. Analisando três grandes estúdios,
MGM, Warner e Universal, entre os anos 10 e 60, a chamada Era de Ouro do
cinema, o autor procura provar que em grande parte das vezes a autoria de
um filme se devia a máquina do estúdio, capitaneada pela figura
pragmática do produtor, e não por seus diretores, que eram
apenas uma de suas peças. Para a máquina funcionar o combustível
era o talento, não apenas dos diretores, mas de toda uma gama de outros
profissionais; que eram vistos antes como profissionais do que como artistas.
Apenas para ser ter uma vaga idéia da estrutura que se esta rememorando
basta lembrar algumas das figuras que os estúdios de Hollywood tiveram
em suas folhas de pagamento: Bertolt Brecht, Thomas Mann, Aldous Huxley,
Igor Stravinsky, Arnold Schoenberg etc, etc, etc. O próprio Sartre
escreveu um roteiro, recusado e hoje lendário, com mais de 800 páginas,
sobre Freud, para um filme que seria rodado por John Huston.
O que acontecia é que em algumas felizes ocasiões
os ingredientes da alquimia corporativa davam tão certo que se criava
a ilusão de que tratava-se de uma obra autoral. Casablanca foi um
caso raro, em que do caos nasceu a luz. Diferente foi ...E o Vento
Levou, em que cada passo foi planejado como se fosse uma operação
de guerra. Nele trabalharam no mínimo três diretores diferentes:
George Cukor, Sam Wood e finalmente Victor Fleming, que assinou o filme
e ganhou o Oscar de direção por ele. No texto colaboraram
um batalhão de roteiristas, dentre os quais os escritores William
Faulkner e F. Scott Fitzgerald. A unidade foi mantida pelo produtor David
O. Selznick, que comandou cada etapa da produção com mão
de ferro. E de se imaginar que algo semelhante tenha acontecido em Spartacus.
Mas, diferente da maioria que aceitava a condição
de operário, Kubrick, cuja personalidade autoritária e independente
se tornaria mitológica, soube capitalizar o sucesso de seu “filho
enjeitado” e passou a centralizar cada vez mais todas as etapas de produção
de seus filmes futuros. Na seqüência assinou obras personalíssimas
como 2001 – uma odisséia no espaço, Laranja Mecânica
e Barry Lyndon. Tornou-se sem dúvida um autor, enfim. Porém,
no meio de uma indústria em que as idiossincrasias pessoais não
podem jamais ficar acima dos lucros, junto com o status de criador original
veio a fama de maníaco por controle, perfeccionista ao extremo, excêntrico,
louco etc. Mas, verdade seja dita, Kubrick, com sua liberdade artística
duramente conquistada, foi uma exceção que confirmava a regra.
Certamente era bom para a industria ter o seu Salvador Dalí particular,
aquele que faz o que quer, quando quer, como quer. Atiça a imaginação
do público acreditar que existe um outsider dentro do sistema. Um
rebelde que faz o melhores filmes, mas passa a carreira praticamente ignorado
pela Academia. Sem dúvida uma concessão do sistema. Não
fosse assim, não há porque duvidar, o gênio de Kubrick
teria o mesmo destino do gênio de Welles. Ademais, Kubrick sabia as
regras do jogo que estava jogando. Como afirmou Frederic Raphael, roteirista
de seu filme testamento, o fraco De Olhos Bem Fechados, no livro em que narra
sua relação com o diretor, ironicamente intitulado De Olhos
Bem Abertos: “Ele parece ser um pouco mais humano – comercial – do que esperei
que fosse um grande diretor de cinema. Gosta de estrelas porque sabem o
que fazem e porque lotam os cinemas”. O mito fica ainda mais a nu quando,
adiante, admitir que “ele é, começo a suspeitar, um diretor
de cinema que por acaso é um gênio e não um gênio
que por acaso é um diretor de cinema”.
De todo modo, se por um lado a produção
fabril dava o tom, por outro não se pode ignorar a contribuição
individual de alguns diretores. Mesmo na Era de Ouro, para cada cem paus-mandados
havia um John Ford, um Alfred Hitchcock, um Billy Wilder, que sem dúvida
possuíam um estilo inconfundível, independentemente do estúdio
onde batiam ponto. Alguns, aliás, em vista da fama adquirida, conseguiam
ser ilhas de independência no seio da indústria. Charles Chaplin
foi o maior nome nesta categoria. Ele atuava, produzia, dirigia, escrevia
o roteiro e compunha a música de seus filmes. Não por acaso
foi um dos fundadores do estúdio United Artists, em bom português
Artistas Unidos, juntamente com Griffith e os atores Douglas Fairbanks e
Mary Pickford. Por ocasião da assinatura dos contratos, a imprensa
alardeou que “os loucos tomaram conta do hospício”.
Não tomaram, mas algumas décadas depois
teriam seu simulacro de Comuna de Paris. O livro Easy Riders, Racing Bulls,
sem tradução para o português, do jornalista Peter Biskind,
faz a crônica desta experiência. Sua tese pode ser resumida
da seguinte forma: no final dos anos sessenta os chefões dos estúdios
estavam muito velhos e não conseguiam acompanhar a mentalidade da
década mais incendiária de todos os tempos. As pessoas fumavam
maconha, dançavam rock e faziam sexo livre, e eles ainda insistiam
em lhes dar comédias românticas ingênuas e musicais melosos.
Era preciso sangue novo para tirar Hollywood do marasmo e salvá-la
da concorrência cada vez maior da TV, do abalo comercial da Lei Antitruste
e do trauma do Macartismo.
A solução veio da França. Nessa
mesma época, os críticos da celebrada revista Cahiers du Cinéma,
dentre os quais François Truffaut, Claude Chabrot e Jean-Luc Godard,
criaram a chamada “política do autor”. Segundo esta tese, os diretores,
eram sempre, em última análise, os criadores dos filmes. De
uma forma ou de outra, alguns mais do que outros, sempre deixam sua marca
no produto final. Os executivos da mais poderosa indústria cinematográfica
do mundo decidiram comprar essa idéia e, literalmente, pagaram para
ver. Experimentaram dar maior poder às mentes criativas que surgiam.
Muitas delas vindas da universidade, dos cursos de cinema. Jovens que entendiam
de sexo, de drogas e de rock’n’roll, porque viviam isto, exatamente como
as novas platéias. E, principalmente, jovens que estavam encantados
com as novidades estéticas que ocorriam no cinema intelectualmente
sedutor e quase amador da Europa, como o neo-realismo italiano e o Nouvelle
Vague francês, criado pelos mesmos críticos do Cahiers du Cinéma.
Assim, a década seguinte, os anos 70, foi “a
década dos diretores”. Nesta época surgiram nomes como Francis
Ford Coppola, Martin Scorsese, Steven Spielberg e outros, impondo seus estilos
e modos de ver a Sétima Arte. Para Biskind, os treze anos entre a
produção do policial Bonnie & Clyde, de 1967, e do faroeste
épico O Portal do Paraíso, de 1980, foram marcados por uma
onda de liberdade criativa até então inédita no cinema.
E o mais interessante é que havia platéias dispostas literalmente
a pagar para ver o resultado disto. Mais do que nunca o cinema foi questionador,
contundente, autoral. Mais do que nunca foi arte.
Tudo ruiu com o fracasso retumbante de O Portal do Paraíso,
de Michael Cimino, que, de um modo até simbólico, levou a
United Artists à falência; devolvendo à máquina
da indústria, esta entidade sem rosto, um tipo de Leviatã,
seu poder de decisão perdido. Um fato importante, sem dúvida,
mas é importante notar que mesmo antes o cinema já dava mostras
de que caminhava para outro rumo: o cinema pipoca. O marco foi Guerra nas
Estrelas, de George Lucas, sucesso estrondoso de 1976. Segundo o crítico
e cineasta Peter Bogdanovich “Guerra nas Estrelas foi o filme que comeu
o coração e a alma de Hollywood”. Lucas se defendeu perguntando:
“Por que as pessoas gostam de ver filmes comendo pipocas? Por que o público
é tão estúpido? Não é minha culpa”. De
fato não é, uma vez que Guerra nas Estrelas é uma aventura
de primeira linha, muito bem urdida, e sua continuação, O Império
Contra-ataca, uma ficção-científica inteligente, fundadora
de uma mitologia moderna que remonta às tragédias gregas. O
mesmo se pode dizer de alguns seus filhos diretos: Caçadores da Arca
Perdida, Alien – o 8o passageiro, Matrix e O Senhor dos Anéis. Cinema
de entretenimento não é necessariamente sinônimo de imbecilidade.
Ademais, é um equívoco atribuir a paternidade
do chamado “filme evento”, o blockbuster, aquele planejado detalhadamente
para fazer sucesso durante um verão, para depois ser descartado,
a Lucas individualmente ou a Hollywood do fim dos anos 70 como um todo.
Afinal, “filme evento” já era o que Cecil B. de Mille fazia nos anos
40 e 50. Os carnavalescos Sansão e Dalila e Os Dez Mandamentos são
a prova. Sempre se vendeu pipoca nos cinemas. O problema é que na
atualidade a tendência se agigantou, virou um monstro. O desejo de
agradar ao público a qualquer custo, dando-lhes o que se imagina que
querem, tornou-se um câncer e o espetáculo pirotécnico
tomou o lugar da narrativa. Como resultado pérolas como Blade Runner,
foram retalhadas por conta de algumas vagas opiniões extraídas
à fórceps de platéias teste. Os filmes passaram a ser
planejados por equipes de marketing, não por cineastas que apenas
executam as decisões tomadas. As vezes a estratégia dá
certo e rende filmes passáveis ou bons, como o primeiro Batman
e a divertida série De Volta para o Futuro. Mas quase sempre o resultado
é desastroso, rendendo bizarrias como o ridículo Batman &
Robin e o acéfalo As Panteras. A lista, nos dois casos, é quilométrica.
Porém, o efeito mais nocivo da cultura do blockbuster
foi que ela ajudou a sedimentar a ilusão de que existem dois tipos
de cinema. Não o cinema bom ou ruim, mas o cinema do bem e o cinema
do mal. Ou seja: o cinema artístico e o cinema comercial. O cinema
para as elites intelectuais sensíveis e o cinema para as massas ignaras.
Para se compreender a lógica ilógica deste dualismo cinematográfico
basta levantar as orelhas e escutar algumas conversas de certos grupos de
freqüentadores de festivais de cinema ou salas de exibição
alternativas. Grosso modo falando o cinema do bem seria aquele feito na
Europa, de preferência na França e em segundo lugar na Alemanha
(o russo saiu de moda, o dinamarquês entrou). Como opção
existem as produções originarias de países pobres (menos
do Brasil), sobretudo os iranianos. É bom que o filme seja curto ou
o contrário, muito, muito longo. Sua narrativa deve ser fragmentada
ou teatral, com ritmo lento, quase sonolento; ritmo ágil significa
alma vendida. Para os diálogos existem dois modelos igualmente considerados:
ou se é tagarela ou quase mudo. Os temas tratados devem sempre envolver
política ou minorias, vistas sob a ótica da esquerda; já
que a direita e o centro são fascistas e portanto indignos de apreciação
(com exceção dos filmes de propaganda nazista de Leni Riefenstahl,
mas deixando claro que não se concorda com nada do que esta vendo).
Quanto aos aspectos técnicos, quanto pior melhor: quanto mais a câmera
tremer e cortar cabeças, mais artístico o filme vai ser. Se
o final do filme for incompreensível, significa que ele é
muito bom. Se por outro lado o enredo inteiro for incompreensível,
significa que se trata de uma obra-prima.
O cinema do mal, por sua vez, é feito nos Estados
Unidos e custa muito caro. Só.
Podem parecer irresponsáveis as afirmações
acima, mas por incrível que pareça elas são uma caricatura
bastante fiel da visão de boa parte do que se costuma designar como
a fatia intelectualizada do público. As causas disto são muitas,
vão desde um tipo estranho de resistência política /
cultural até a simples vontade individual de parecer moderno, antenado,
na moda. A maioria se esquece que as tais duas formas de se fazer e ver cinema
freqüentemente se amalgamam. Esquecem que o Festival de Cannes virou
uma feira livre. Esquecem que o maior e melhor festival de cinema alternativo
é norte-americano, o Sundance; capitaneado pelo astro Robert Redford.
Que boa parte dos bons diretores europeus fizeram o melhor de suas carreiras
dentro do sistema de Hollywood. Que os melhores mise en scene do Velho Mundo
nada tinham de obscuros, na maioria das vezes eram narradores cristalinos,
no que se inclui Federico Fellini, Roberto Rosselline, Jean Renoir, Vittorio
de Sica, Fritz Lang; além de outros erroneamente considerados impenetráveis
como Michelângelo Antonioni, Ingmar Bergman, F. W. Murnau e até
mesmo Tarkovsky, apesar do sono. Ainda afogados no clichê Godard,
ignoram, ou fingem ignorar, o fato de que o mesmo diretor do amado O Fabuloso
Destino de Amélie Poulain, Jean-Pierre Jeunet, fez o caça-níquel
Aliens – A Ressurreição, nos Estados Unidos. Hoje, na Europa,
os filhos da Geração de 68, que discutia Godard, Marx e Freud
em mesas de bar, estão assistindo coisas como o cartunesco Astérix
& Obélix Contra César, a boa aventura kunf-fu O Pacto
dos Lobos, o longo clipe Corra Lola, Corra, a comédia bem sacada
Adeus, Lênin e a comédia pastelão lírico A Vida
é Bela. Um cinema mais para Tarentino do que para Pasolini.
A respeitada crítica norte-americana Pauline
Kael (uma espécie de Bárbara Heliadora do cinema, que de tão
temida e odiada mereceu uma “homenagem” na fantasia Willow na Terra da Magia,
emprestando seu sobrenome ao vilão), condenava a tendência
de se forçar a identificação do produto cinematográfica
com sendo Grande Arte através do uso de uma linguagem propositadamente,
e exageradamente, obscura. Nos ensaios de seu livro Criando Kane, ataca
a intelectualização da crítica especializada. Defende
o prazer de se assistir um filme com a liberdade de “desfrutar do lixo como
se fosse arte”. De fato, para a propagação da inversão
de valores descrita acima, mais determinante do que os vícios da
platéia são os vícios da crítica e dos realizadores,
nesta ordem. Muitas vezes a crítica cinematográfica, talvez
para justificar sua existência, procura chifre em cabeça de
cavalo e, por incrível que pareça, ou faz parecer, encontra.
Como resultado vemos filmes absolutamente descartáveis como Madame
Satã ou Minority Report, se transformarem derrepente em obras-primas
elogiadas por meio mundo, pelas razões mais estapafúrdias.
Da mesma forma a vontade que boa parte dos cineastas tem de parecerem artistas
inovadores colabora com esta divisão dualista do cinema. Para cada
P. T. Anderson que tira da cartola sacadas brilhantes de realismo fantástico,
como a chuva de sapos em Magnólia, existem dezenas de indivíduos
que nos fazem engolir sapos como se fossem originalíssimos achados
metafóricos. Optam pelo complicado, ao invés do simples. Mas,
como se sabe, o gênio simplifica.
Em seus tempos de crítico, quando escrevia para
a revista Cahiers du Cinéma, o ótimo diretor francês
François Truffaut afirmou que: “Não temos coisa alguma a aprender
com os cineastas de gênio se eles se chamam Eisenstein ou Orson Welles,
pois é precisamente o gênio que os torna inimitáveis,
e arriscamo-nos a cair no ridículo ao tentar, como eles, colocar a
câmera no chão ou no teto. Em contrapartida, temos tudo a aprender
com os cineastas americanos de talento como Samuel Fuller, que colocam a
câmara ‘à altura do olho humano’”. Não dando ouvidos
a este sábio conselho a obsessão pelo “artístico” se
tornou uma praga. Tudo o que foi original com Luis Buñuel, em seus
loucos dois primeiros filmes surrealistas, Um Cão Andaluz, de 1928,
e L’age d’or, de 1930, virou pretensão intelectualoide vazia nas últimas
décadas. A máxima “uma câmera na mão e uma idéia
na cabeça”, deixou de ser um manifesto de liberdade para se converter
em desculpa.
Infelizmente o criador da máxima, Glauber Rocha,
foi um dos porta-vozes desta perspectiva. Ele, que fez fama com a narrativa
de cordel sofisticada de Deus e o Diabo na Terra do Sol, terminou a vida
pregando que o cinema é algo para ser visto e sentido, sendo portanto
uma mera convenção que um filme deva ter começo, meio
e fim. No recente documentário Glauber – Labirinto do Brasil, o cineasta
aparece falando em um estranho idioma, mistura de italiano, espanhol e português,
que não adianta lhe perguntar o sentido de suas últimos trabalhos,
pois ele mesmo não sabe e, se subentende, nem precisa saber. Foi
mal sucedido em sua defesa de tese. O seu filme A Idade da Terra, acabou
sendo um fracasso de público e nem a crítica aduladora engoliu
a obra sem pé nem cabeça. Mal perdedor, Glauber quis bater
em Louis Malle depois de ser derrotado por ele no Festival de Veneza de 1980.
Chamou-o aos berros de “diretor de segunda categoria”, acusando a direção
do evento de favorecer o comércio em detrimento da arte, somente
porque Malle insistiu em contar uma história coerente em Atlantic
City e foi premiado por isto.
Diferente do brasileiro, Eisenstein jamais deixou de
se preocupar com a dramaturgia cinematográfica. Seus textos teóricos
em que discute este assunto foram organizados em dois volumes, O Sentido
do Filme e A Forma do Filme, publicados no Brasil pela editora Jorge Zahar.
Neles o cinema é retratado como “a mais internacional das artes”,
na medida em que a montagem de um filme deve possuir uma clareza de intenção
universal, ser compreensível para qualquer um, estimulando a razão
e o sentimento do espectador. Muitas das produções artísticas
contemporâneas, ancoradas no blefe pós-moderno, optam por eliminar
esta inteligibilidade essencial do objeto filme, em nome de ideais estéticos
que nunca ficam muito claros, principalmente porque ninguém entende
nada do que se passa na tela. O resultado são filmes herméticos
ao extremo, fechados em si mesmo. Para combater o mercado, e sedimentar
a autoria como fato, giram em torno no umbigo do diretor. De tão
pessoais, perdem qualquer traço de comunicabilidade universal, e
justamente por isto assumem ares de portadores de verdades obscuras, acessíveis
apenas para alguns poucos iniciados. Bobagem, claro.
Mesmo depois de esgotados por Andy Warhol, exemplos
recentes deste gênero não faltam. Do quintal de Hollywood veio
o caótico Cidade dos Sonhos, de David Lynch, que nos momentos de
lucidez é capaz de fazer maravilhas como Veludo Azul e Coração
Selvagem. Muitos perdem tempo tentando decifrar o turbilhão desenfreado
de signos que brotam de Cidade dos Sonhos. Poucos sabem que o filme é
uma colcha de retalhos porque não passa da reunião de algumas
cenas do que deveria ter sido um seriado cancelado antes de ir ao ar, acrescidas
de mais uns bons trinta ou quarenta minutos de seqüências novas.
Portanto, apenas reciclagem criativa de sobras de filmagens. A direção
de atores é impecável, mas, convenhamos, sentido não
há nenhum. Com o fio da meada perdido, nem o fio de Ariadne daria
jeito neste labirinto.
Diretamente do Brasil vem Filme de Amor, de Júlio
Bressane, festejado diretor underground de Matou a Família e foi
ao Cinema, de 1969. Ganhador de um festival em Brasília, Filme de
Amor é uma esfinge banguela. Exige ser decifrado, mas de tão
fraco não consegue devorar ninguém. Mera masturbação
intelectual, faz a festa de quem gosta de posar de entendido em cinema.
Permite as maiores elucubrações, qualquer coisa que se concluir
vai ser correta, uma vez que nele tudo e alegórico e de livre interpretação.
É ótimo para impressionar garotas no papo cabeça durante
o primeiro encontro. A sensação que se tem é a de que
Filme de Amor não passa da reunião aleatória de diversas
imagens que Bressane colecionou e decidiu colocar juntas. O famoso samba
do crioulo doido. Um consolo: a fotografia é razoável e a cena
final é boa. Mas isto é muito pouco diante de duas horas de
enrolação.
O cinema esta em crise permanente, desde sua criação.
Do advento do som à era das locadoras, a indústria teve que
se reinventar continuamente para sobreviver. O tempo tornou-a multifacetada
e mesmo o dito cinema artístico nada mais é do que mais uma
fatia do mercado. Ainda assim, e por sua adaptabilidade, o cinema foi o
modo de expressão mais influente do século XX (no XXI encontrou
a Internet pela frente). Sua importância pode ser medida por sua capacidade
de criar tendências, ou no mínimo de divulgar tendências
emergentes. Neste sentido tornou-se clichê lembrar que o fato de Marlon
Brando haver usado calças jeans e jaqueta de couro em O Selvagem,
gerou uma revolução cultural na juventude muito mais visível
e permanente do que todos os livros de Marx juntos. Revolução
burguesa e silenciosa. E por isto mesmo faz-se necessário admitir
que o cinema é antes de tudo indústria. A figura do autor existe,
mas é rara e só acontece em situações muito
especiais, sempre como párias ou concessões da indústria.
E mesmo nestes casos, repito, as exceções confirmam a regra.
Neste ambiente hostil a arte sobrevive como uma variável necessária,
perceptível nas contribuições individuais feitas em
um produto corporativo. Produções do tipo “filme dentro do
filme”, como A Noite Americana, de Truffaut, O Estado das Coisas, de Wins
Wenders, Coração de Caçador, de Clint Eastwood, e até
mesmo Dirigindo no Escuro, de Woody Allen, e Ed Wood, de Tim Burton, são
pródigas em retratar esta realidade.
Porém, o cinema não esta sozinho na selva
do capitalismo selvagem. O século XX fez de todas as artes tradicionais
produtos de consumo. Música erudita é vendida na prateleira
ao lado da de música pop. Clássicos da literatura ao lado
de livrecos de aeroporto. A mesma companhia de teatro que monta Falabella
hoje, monta Ibsen amanhã. Paulo Coelho na Academia. Ninguém
mais é inocente. O que houve é que o cinema, por ser de invenção
recente, intrinsecamente ligada ao capital e a tecnologia, ganhou papel
de Judas neste cenário. Mas, acredito, como em qualquer outra arte,
o valor estético de uma da obra cinematográfica só
pode ser medido em função de sua capacidade de permanência.
Quanto a isto, Glauber Rocha fez uma interessante reflexão, quando
afirmou que: “Os grandes filmes, como as grandes obras da pintura, continuarão
passando no cinema – museus ou salas de arte – é assim com O Encouraçado
Potemkin, que será sempre mais visto que James Bond, porque continua
se exibindo a trinta anos e, se há dois milhões que vêem
Bond em um mês, há dez milhões que vêm vendo O
Encouraçado todos esses anos”. Incluindo, talvez, mas não necessariamente,
a garota gordinha imaginada por Coppola.
Daniel Luterman parou, afastou a boca do microfone.
Bebeu um gole de água. Ficou satisfeito com os poucos aplausos que
recebeu da platéia ainda mais esvaziada do que no início.
Não posso reclamar, pensou: poderia ser gago, como Hegel.
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Ademir
Luiz da Silva é historiador e Professor da UEG - Universidade Estadual
de Goiás.
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