Jean Isídio
dos Santos
De cada ida ao cinema, apesar de todo
cuidado,
saio mais estúpido e pior.
Theodor Adorno.
É inegável o constante crescimento, estruturação
e solidificação dos meios de comunicação na sociedade
contemporânea. Os meios de comunicação
modificam-se a cada dia, adquirem novas formas, são mutáveis
e precisos, estão presentes no nosso cotidiano agindo cada vez mais
a serviço capital, determinando e influenciando a cada dia a nova
moda, a nova música, o novo filme, na busca incessante por novos mercados
impondo valores e visões de mundo para as massas.
Esta constante preocupação por parte dos
produtores na busca por números do Ibope, repetições
de músicas de sucesso e filmes banais, coloca-nos diante de uma banalização
generalizada e uma crescente padronização dos produtos culturais
cada vez mais simplificados. Desta forma é possível atualmente
falarmos em qualidade nos meios de comunicação? È
possível discutirmos esta qualidade?
Torna-se necessário discutirmos se existe uma ampla
participação dos telespectadores nas programações
televisivas, nas músicas vinculadas às programações
de rádios, e mais ainda, se as opiniões dos consumidores dos
produtos culturais são respeitadas. Ao ligarmos o rádio e a
tv, deparamo-nos com uma quantidade enorme de programas de péssima
qualidade e de baixo nível cultural, contudo, dificilmente encontramos
programas reflexivos, críticos, capazes de questionarem a sociedade
contemporânea e os seus valores.
Neste texto as preocupações voltam-se para
as relações da Indústria Cultural com a Indústria
Cinematográfica, procurando analisar de que forma a Indústria
Cinematográfica consolidou-se no mercado e passou a ser incorporada
pela Indústria Cultural.
Para analisar a estreita relação entre a
Indústria Cultural e a Indústria Cinematográfica, torna-se
necessário recorrer às teorias críticas clássicas
de Adorno e Horkheimer, respectivos representantes da Escola de Frankfurt.
Adorno e Horkheimer foram os primeiros a utilizarem o termo Indústria
Cultural no livro a Dialética do Esclarecimento a partir de uma
perspectiva crítica.
A obtenção do lucro é lógica
máxima da Indústria Cultural seguindo os mesmos objetivos da
lógica capitalista.
Toda a práxis da Indústria Cultural transfere,
sem mais, a motivação do lucro às criações
espirituais. A partir do momento em que essas mercadorias asseguram a vida
de seus produtores no mercado, elas já estão contaminadas por
essa motivação. Mas eles não almejam o lucro senão
de forma imediata, através de seu caráter autônomo. O
que é novo na Indústria Cultural é o primado imediato
confesso do efeito, que por sua vez é precisamente calculado em seus
produtos mais típicos. A autonomia das obras de arte, que é
verdade, quase nunca existiu de forma pura e que sempre foi marcada por conexões
de efeito, vê-se no limite abolida pela Indústria Cultural.
Com ou sem vontade consciente de seus promotores. Estes são tanto
órgãos de execução como também os detentores
do poder.
As antigas possibilidades tornam-se cada vez mais precárias
devido a esse mesmo processo de concentração, que por seu torno
só torna possível a Indústria Cultural enquanto instituição
poderosa (Adorno, 1977, p. 289).
Os produtos da Indústria Cultural, o cinema, o rádio,
a televisão, as artes gráficas são controlados pelos
produtores capitalistas, que são em grande maioria pertencentes à
ordem dominante.
“A Indústria Cultural produz uma padronização
e manipulação da cultura, reproduzindo a dinâmica de
qualquer outra indústria capitalista, a busca do lucro, mas também
reproduzindo as idéias que servem para a sua própria perpetuação
e legitimação e, por extensão a sociedade capitalista
como um todo”.(Viana, 2003, p.01).
È dentro desta lógica
capitalista que a Indústria Cinematográfica estrutura-se e
amplia o seu mercado passando a integrar e a pertencer ao sistema da Indústria
Cultural ficando nas mãos dos capitalistas monopolistas. O cinema
que no seu início não possuía som, mas apenas rápidas
imagens em preto e branco que duravam quando muito 60 segundos, exibia cenas
do cotidiano , famílias na hora do almoço crianças brincando
no jardim dentre outras cenas que fascinavam o público. Público
que rapidamente aumentou e cada vez mais engrossava as enormes filas na
frente dos principais teatros na busca desesperada por um ingresso.
Os irmãos Lumiére, principais pioneiros e protagonistas, não
acreditavam que a invenção deles pudesse ser vendida.
Para os Irmãos Lumiére, a invenção
poderia ser explorada algum tempo como curiosidade científica, mas
sem nenhum interesse comercial. Percebendo rapidamente o sucesso alcançado
pelo cinema e o fascínio despertado no público, os Irmãos
Lumiére investiram maciçamente na Indústria Cinematográfica,
na montagem e nas distribuições das películas.
Sendo assim, a sétima arte corresponde à primeira tentativa
de sociabilidade e democratização da arte no início
do século XX, visto que no período inicial a linguagem cinematográfica
era universal, pois as películas produzidas não possuíam
som, podendo ser vistas em qualquer parte do mundo.
Cabe esclarecer que a sétima arte foi fruto da Revolução
Industrial, das inovações tecnológicas ocorridas no
século XIX, inovações que foram patrocinadas pela burguesia.
A Indústria Cinematográfica nas primeiras décadas do
século XX desenvolve-se rapidamente e toda lógica interna, seja
nas distribuições das películas ou nas montagens
dos mesmos, voltam-se para a reprodução da ideologia dominante
e da obtenção e repetição do sucesso nas bilheterias
capazes de agradar o público e promover o lucro.
Enquanto o processo de produção no setor
central da Indústria Cultural – o filme se aproxima de procedimentos
técnicos através da avançada divisão do trabalho,
da introdução de máquinas, e da separação
dos trabalhadores dos meios de produção (essa separação
manifesta-se no eterno conflito entre os artistas ocupados na Indústria
cultural e os potentados desta) conservam-se também formas de produção
individual. Cada produto apresenta-se como individual, a individualidade
mesma contribui para o fortalecimento da ideologia, na medida em que desperta
a ilusão de que é coisificado e mediatizado é um refúgio
de imediatismo e de vida. (Adorno, 1977, p. 289).
Circulação do capital, lucro e exploração
comercial, tornam-se jargões da Indústria Cultural na medida
em que ela atua como parasita sobre a técnica extra-artística,
apropriando-se das produções artísticas e reproduzindo-as
para a rápida comercialização.
Nas primeiras décadas do século XX, a Indústria
Cinematográfica vivenciava o contexto do capitalismo monopolista,
os produtores que pertenciam a este período organizaram-se rapidamente
na elaboração de filmes voltados para as massas. Em 1914, o
público norte-americano de cinema chegava a quase 50 milhões
de espectadores, número que posteriormente dobrou na década
de quarenta e início da década de 50, período considerado
como período áureo do cinema produzido em Hollywood.
Este rápido crescimento não só de
espectadores, mas também de vários cinemas, triplicou o número
de espectadores não só nos E.U.A como também na Europa,
propiciaram a estruturação da Indústria Cinematográfica.
É importante destacar que na medida em que a Indústria
Cinematográfica crescia e se estruturava, os grandes produtores monopolizavam
e dominavam todo o processo da produção cinematográfica.
Para se ter uma idéia desta monopolização cerca de 95%
das produções cinematográficas eram controladas pelos
grupos monopolistas de Hollywood sufocando e enfraquecendo as pequenas companhias
cinematográficas.
Entretanto, a produção cinematográfica
norte-americana beneficiou-se pela crise ocorrida na produção
do mercado europeu, prejudicado pela Segunda Guerra Mundial. A política
expansionista norte-americana visava dominar o mercado cinematográfico
europeu e também se expandir por todo o mundo. No contexto da Segunda
Guerra Mundial, as produções européias foram praticamente
sufocadas pela Indústria Cinematográfica norte-americana,
que em pouco tempo colonizou e expandiu as exportações para
a América Latina e África, incluindo países como México,
Brasil, Argentina, Venezuela e República Sul-Africana.
Este período é marcado pelo surgimento do monopólio
das grandes companhias norte-americanas no mercado internacional, esta internacionalização
da produção cinematográfica é um dos principais
objetivos da Indústria Cultural, que tem como objetivo comum, abrir
mutuamente novos mercados, assegurar melhores condições para
a exportação e investir capitais livres que no próprio
país encontram um mercado restrito. Portanto, torna-se uma preocupação
fundamental da Indústria Cultural a consolidação no
mercado externo e a busca por novos capitais em outros países, garantindo
vultuosos lucros. Para Vasquez:
A aplicação do critério de
produtividade à arte cinematográfica, reduzindo-a pura e simplesmente
à condição de Indústria, sela seu lamentável
destino artístico, pois somente em pouquíssimos casos o diretor
consegue enfrentar com êxito o marco hostil que envolve sua criação.(Vasquez,
1978, p. 246).
A estandardização e a padronização,
aliada a racionalização da produção que tem como
objetivo o critério da rápida produtividade econômica,
cega e destroem as possibilidades das criações artísticas.
A Indústria Cinematográfica faz parte dos meios de comunicação
que compõe a Indústria Cultural, e desta forma contribui com
a mercantilização, a vulgarização e a simplificação
da produção cultural. Os meios de comunicação
tais como: o rádio, a televisão, os jornais e o cinema são
produzidos em série, voltados para gerarem lucros e para alimentarem
as cifras da indústria capitalista.
Quando a arte produzida encontra-se subserviente ao capitalismo
e reproduz a ideologia da classe dominante, quando a arte passa a ser apenas
mais um produto trocável por dinheiro, esta arte industrializada
passa a ser simplificada e vazia.
A arte perde, portanto, a sua aura, passando a ser consumida
como se consome qualquer produto. A Indústria Cultural tem como objetivo
conter o desenvolvimento da consciência das massas e desta forma
torna-se, por determinação da classe dominante, que por trás
do controle da mídia e detentora dos meios de comunicação,
a maior interessada em manter o baixo nível cultural e reproduzir
o círculo de manipulação e alienação entre
as massas, garantindo assim a manutenção do sistema capitalista.
Nossa crítica volta-se para as produções
cinematográficas geradas dentro desta lógica mecanicista imposta
pela indústria cultural. As produções cinematográficas
submetidas às leis da produção material capitalista,
não possibilitam ao diretor uma liberdade de criação
artística, pois o critério da produtividade econômica
cega algumas vezes à possibilidade de criação.
Em meio ao cerco hostil do modo de produção
capitalista torna-se cada vez mais necessário fazer uma reflexão
crítica dos meios de comunicação e da atuação
da Indústria Cultural em nosso cotidiano. Sendo assim, a partir destas
reflexões acreditamos ser possível a partir das críticas
tecidas às produções artísticas geradas dentro
da lógica capitalista da Indústria Cultural, lutarmos no sentido
de conceber uma arte que não esteja voltada simplesmente para a reprodução
da ideologia dominante e para a lógica comercial, mas sim uma arte
concebida a partir da liberdade de criação artística
que atue nas contradições existentes no interior da Indústria
cultural.
Referências Bibliográficas
ADORNO, Theodor. Indústria Cultural. In:
CONH, Gabriel (org). Comunicação e Indústria
Cultural. São Paulo, Nacional, 1977.
VASQUEZ, Adolfo S. As idéias Estéticas
de Marx. 2ª Edição. Rio de Janeiro, Paz e Terra,
1978.
PROKOP, Dieter. A Estrutura Monopolista Internacional
da Produção Cinematográfica. In: FILHO, Ciro M (org.).
Prokop. São Paulo, Ática, 1986.
VIANA, Nildo. Reflexões sobre a Indústria
Cultural. In: Revista Humanidades em Foco. n° 3, abril/junho.2004.