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Revista Crítica do Cinema.
Ano 01, num. 01, Dezembro de 2006




O Cinema e a Indústria Cultural

Jean Isídio dos Santos


De cada ida ao cinema, apesar de todo cuidado,
saio mais estúpido e pior
.
Theodor Adorno.


 
É inegável o constante crescimento, estruturação e solidificação dos meios de comunicação na sociedade contemporânea.    Os meios de comunicação modificam-se a cada dia, adquirem novas formas, são mutáveis e precisos, estão presentes no nosso cotidiano agindo cada vez mais a serviço capital, determinando e influenciando a cada dia a nova moda, a nova música, o novo filme, na busca incessante por novos mercados impondo valores e visões de mundo para as massas.

Esta constante preocupação por parte dos produtores na busca por números do Ibope, repetições de músicas de sucesso e filmes banais, coloca-nos diante de uma banalização generalizada e uma crescente padronização dos produtos culturais cada vez mais simplificados. Desta forma é possível atualmente falarmos em qualidade nos meios de comunicação? È possível discutirmos esta qualidade?

Torna-se necessário discutirmos se existe uma ampla participação dos telespectadores nas programações televisivas, nas músicas vinculadas às programações de rádios, e mais ainda, se as opiniões dos consumidores dos produtos culturais são respeitadas. Ao ligarmos o rádio e a tv, deparamo-nos com uma quantidade enorme de programas de péssima qualidade e de baixo nível cultural, contudo, dificilmente encontramos programas reflexivos, críticos, capazes de questionarem a sociedade contemporânea e os seus valores.

Neste texto as preocupações voltam-se para as relações da Indústria Cultural com a Indústria Cinematográfica, procurando analisar de que forma a Indústria Cinematográfica consolidou-se no mercado e passou a ser incorporada pela Indústria Cultural.

Para analisar a estreita relação entre a Indústria Cultural e a Indústria Cinematográfica, torna-se necessário recorrer às teorias críticas clássicas de Adorno e Horkheimer, respectivos representantes da Escola de Frankfurt. Adorno e Horkheimer foram os primeiros a utilizarem o termo Indústria Cultural no livro a Dialética do Esclarecimento a partir de uma perspectiva crítica.

A obtenção do lucro é lógica máxima da Indústria Cultural seguindo os mesmos objetivos da lógica capitalista.

Toda a práxis da Indústria Cultural transfere, sem mais, a motivação do lucro às criações espirituais. A partir do momento em que essas mercadorias asseguram a vida de seus produtores no mercado, elas já estão contaminadas por essa motivação. Mas eles não almejam o lucro senão de forma imediata, através de seu caráter autônomo. O que é novo na Indústria Cultural é o primado imediato confesso do efeito, que por sua vez é precisamente calculado em seus produtos mais típicos. A autonomia das obras de arte, que é verdade, quase nunca existiu de forma pura e que sempre foi marcada por conexões de efeito, vê-se no limite abolida pela Indústria Cultural. Com ou sem vontade consciente de seus promotores. Estes são tanto órgãos de execução como também os detentores do poder.

As antigas possibilidades tornam-se cada vez mais precárias devido a esse mesmo processo de concentração, que por seu torno só torna possível a Indústria Cultural enquanto instituição poderosa (Adorno, 1977, p. 289).

Os produtos da Indústria Cultural, o cinema, o rádio, a televisão, as artes gráficas são controlados pelos produtores capitalistas, que são em grande maioria pertencentes à ordem dominante.

“A Indústria Cultural produz uma padronização e manipulação da cultura, reproduzindo a dinâmica de qualquer outra indústria capitalista, a busca do lucro, mas também reproduzindo as idéias que servem para a sua própria perpetuação e legitimação e, por extensão a sociedade capitalista como um todo”.(Viana, 2003, p.01).

    È dentro desta lógica capitalista que a Indústria Cinematográfica estrutura-se e amplia o seu mercado passando a integrar e a pertencer ao sistema da Indústria Cultural ficando nas mãos dos capitalistas monopolistas. O cinema que no seu início não possuía som, mas apenas rápidas imagens em preto e branco que duravam quando muito 60 segundos, exibia cenas do cotidiano , famílias na hora do almoço crianças brincando no jardim dentre outras cenas que fascinavam o público.  Público que rapidamente aumentou e cada vez mais engrossava as enormes filas na frente dos principais teatros na busca desesperada por um ingresso.   Os irmãos Lumiére, principais pioneiros e protagonistas, não acreditavam que a invenção deles pudesse ser vendida.
 
   Para os Irmãos Lumiére, a invenção poderia ser explorada algum tempo como curiosidade científica, mas sem nenhum interesse comercial. Percebendo rapidamente o sucesso alcançado pelo cinema e o fascínio despertado no público, os Irmãos Lumiére investiram maciçamente na Indústria Cinematográfica, na montagem e nas distribuições das películas.
   
Sendo assim, a sétima arte corresponde à primeira tentativa de sociabilidade e democratização da arte no início do século XX, visto que no período inicial a linguagem cinematográfica era universal, pois as películas produzidas não possuíam som, podendo ser vistas em qualquer parte do mundo.
   
Cabe esclarecer que a sétima arte foi fruto da Revolução Industrial, das inovações tecnológicas ocorridas no século XIX, inovações que foram patrocinadas pela burguesia. A Indústria Cinematográfica nas primeiras décadas do século XX desenvolve-se rapidamente e toda lógica interna, seja nas distribuições das películas  ou nas montagens dos mesmos, voltam-se para a reprodução da ideologia dominante e da obtenção e repetição do sucesso nas bilheterias capazes de agradar o público e promover o lucro.

Enquanto o processo de produção no setor central da Indústria Cultural – o filme se aproxima de procedimentos técnicos através da avançada divisão do trabalho, da introdução de máquinas, e da separação dos trabalhadores dos meios de produção (essa separação manifesta-se no eterno conflito entre os artistas ocupados na Indústria cultural e os potentados desta) conservam-se também formas de produção individual. Cada produto apresenta-se como individual, a individualidade mesma contribui para o fortalecimento da ideologia, na medida em que desperta a ilusão de que é coisificado e mediatizado é um refúgio de imediatismo e de vida. (Adorno, 1977, p. 289).
   
Circulação do capital, lucro e exploração comercial, tornam-se jargões da Indústria Cultural na medida em que ela atua como parasita sobre a técnica extra-artística, apropriando-se das produções artísticas e reproduzindo-as para a rápida comercialização.

Nas primeiras décadas do século XX, a Indústria Cinematográfica vivenciava o contexto do capitalismo monopolista, os produtores que pertenciam a este período organizaram-se rapidamente na elaboração de filmes voltados para as massas. Em 1914, o público norte-americano de cinema chegava a quase 50 milhões de espectadores, número que posteriormente dobrou na década de quarenta e início da década de 50, período considerado como período áureo do cinema produzido em Hollywood.

Este rápido crescimento não só de espectadores, mas também de vários cinemas, triplicou o número de espectadores não só nos E.U.A como também na Europa, propiciaram a estruturação da Indústria Cinematográfica. É importante destacar que na  medida em que a Indústria Cinematográfica crescia e se estruturava, os grandes produtores monopolizavam e dominavam todo o processo da produção cinematográfica. Para se ter uma idéia desta monopolização cerca de 95% das produções cinematográficas eram controladas pelos grupos monopolistas de Hollywood sufocando e enfraquecendo as pequenas companhias cinematográficas.

Entretanto, a produção cinematográfica norte-americana beneficiou-se pela crise ocorrida na produção do mercado europeu, prejudicado pela Segunda Guerra Mundial. A política expansionista norte-americana visava dominar o mercado cinematográfico europeu e também se expandir por todo o mundo. No contexto da Segunda Guerra Mundial, as produções européias foram praticamente sufocadas pela Indústria Cinematográfica norte-americana, que em pouco tempo colonizou e expandiu as exportações para a América Latina e África, incluindo países como México, Brasil, Argentina, Venezuela e República Sul-Africana.
   
Este período é marcado pelo surgimento do monopólio das grandes companhias norte-americanas no mercado internacional, esta internacionalização da produção cinematográfica é um dos principais objetivos da Indústria Cultural, que tem como objetivo comum, abrir mutuamente novos mercados, assegurar melhores condições para a exportação e investir capitais livres que no próprio país encontram um mercado restrito. Portanto, torna-se uma preocupação fundamental da Indústria Cultural a consolidação no mercado externo e a busca por novos capitais em outros países, garantindo vultuosos lucros. Para Vasquez:
   

A aplicação do critério de produtividade à arte cinematográfica, reduzindo-a pura e simplesmente à condição de Indústria, sela seu lamentável destino artístico, pois somente em pouquíssimos casos o diretor consegue enfrentar com êxito o marco hostil que envolve sua criação.(Vasquez, 1978, p. 246).

A estandardização e a padronização, aliada a racionalização da produção que tem como objetivo o critério da rápida produtividade econômica, cega e destroem as possibilidades das criações artísticas. A Indústria Cinematográfica faz parte dos meios de comunicação que compõe a Indústria Cultural, e desta forma contribui com a mercantilização, a vulgarização e a simplificação da produção cultural.  Os meios de comunicação tais como: o rádio, a televisão, os jornais e o cinema são produzidos em série, voltados para gerarem lucros e para alimentarem as cifras da indústria capitalista.

Quando a arte produzida encontra-se subserviente ao capitalismo e reproduz a ideologia da classe dominante, quando a arte passa a ser apenas mais um produto trocável por dinheiro, esta arte industrializada passa a ser simplificada e vazia.

A arte perde, portanto, a sua aura, passando a ser consumida como se consome qualquer produto. A Indústria Cultural tem como objetivo conter o desenvolvimento da consciência das massas e desta  forma torna-se, por determinação da classe dominante, que por trás do controle da mídia e detentora dos meios de comunicação, a maior interessada em manter o baixo nível cultural e reproduzir o círculo de manipulação e alienação entre as massas, garantindo assim a manutenção do sistema capitalista.

Nossa crítica volta-se para as produções cinematográficas geradas dentro desta lógica mecanicista imposta pela indústria cultural. As produções cinematográficas submetidas às leis da produção material capitalista, não possibilitam ao diretor uma liberdade de criação artística, pois o critério da produtividade econômica cega algumas vezes à possibilidade de criação.

Em meio ao cerco hostil do modo de produção capitalista torna-se cada vez mais necessário fazer uma reflexão crítica dos meios de comunicação e da atuação da Indústria Cultural em nosso cotidiano. Sendo assim, a partir destas reflexões acreditamos ser possível  a partir das críticas tecidas às produções artísticas geradas dentro da lógica capitalista da Indústria Cultural, lutarmos no sentido de conceber uma arte que não esteja voltada simplesmente para a reprodução da ideologia dominante e para a lógica comercial, mas sim uma arte concebida a partir da liberdade de criação artística que atue nas contradições existentes  no interior da Indústria cultural.

Referências Bibliográficas

ADORNO, Theodor. Indústria Cultural. In: CONH, Gabriel (org). Comunicação e Indústria Cultural. São Paulo, Nacional, 1977.

VASQUEZ, Adolfo S. As idéias Estéticas de Marx. 2ª Edição. Rio de Janeiro,  Paz e Terra, 1978.

PROKOP, Dieter. A Estrutura Monopolista Internacional da Produção Cinematográfica. In: FILHO, Ciro M (org.). Prokop. São Paulo, Ática, 1986.

VIANA, Nildo. Reflexões sobre a Indústria Cultural. In: Revista Humanidades em Foco. n° 3, abril/junho.2004.


Jean Isídio dos Santos é historiador.


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